Share the Post:

Da Teoria à Realidade: O Impacto da ADI 7265 e dos Temas 6 e 1234 na Advocacia e na Vida dos Beneficiários

A ADI 7265 e os Temas 6 e 1234 do Supremo Tribunal Federal não ficaram restritos aos livros ou às sustentações orais em Brasília. Eles desceram para o cotidiano. E o impacto não é abstrato. Ele é concreto — na rotina da advocacia e na vida de quem recebe uma negativa de cobertura.

O que o STF fez foi alterar o padrão de convencimento judicial. E quando o padrão muda, a prática muda junto.

A Era da Evidência: quando a ciência vira requisito

Se há uma expressão capaz de sintetizar o momento atual do Direito da Saúde, é esta: Era da Evidência.

O que o STF consolidou não foi apenas um conjunto de critérios. Foi uma mudança de paradigma. O Supremo não retirou o direito à saúde.Mas elevou o nível da prova.

A decisão judicial deixou de se sustentar predominantemente na retórica principiológica e passou a exigir densidade científica como condição para intervenção.

Antes, a lógica predominante era relativamente simples: prescrição médica + urgência + direito à vida.

Hoje, a equação é mais sofisticada: prescrição fundamentada + demonstração de falha terapêutica + evidência científica consistente + justificativa técnica para afastar protocolo regulatório.

A ciência deixou de ser reforço argumentativo e tornou-se elemento estruturante da decisão.

Isso significa que laudos médicos precisam ser detalhados, individualizados e, sempre que possível, dialogar com diretrizes clínicas e literatura especializada. A excepcionalidade do caso deve ser demonstrada com clareza técnica.

A Era da Evidência não elimina o direito à saúde.
Ela condiciona sua concretização a um padrão probatório mais robusto.

O Impacto na Vida do Advogado

Para quem atua no Direito da Saúde, a diferença é perceptível. Aquele modelo antigo, baseado em prescrição médica simples e invocação do direito à vida, já não garante o mesmo resultado. As decisões passaram a exigir mais.

Mais técnica.
Mais prova.
Mais densidade científica.

O advogado deixou de ser apenas intérprete constitucional. Tornou-se estrategista probatório.

A liminar já não é automática. Magistrados têm exigido complementação probatória, laudos mais detalhados e demonstração clara de inadequação do tratamento previsto no Rol ou na RENAME.

A advocacia deixou de ser predominantemente principiológica e tornou-se estruturalmente probatória, uma ação bem-sucedida começa antes do protocolo.

Hoje, uma ação bem estruturada exige diálogo prévio com o médico, orientação sobre a necessidade de laudo fundamentado, coleta organizada de exames, comprovação de falha terapêutica e, muitas vezes, anexação de estudos científicos.

Isso eleva o nível da atuação — mas também aumenta a responsabilidade.

Não é mais possível protocolar uma inicial às pressas confiando apenas na urgência do caso.

O risco de indeferimento liminar cresceu quando a prova técnica é frágil. E, em demandas de saúde, tempo é fator crítico.

O advogado passou a trabalhar com uma variável adicional: antecipar as exigências do magistrado. A pergunta deixou de ser apenas “há direito?” e passou a ser “consigo demonstrar tecnicamente esse direito?”.

Essa mudança também impacta emocionalmente o profissional. O nível de preparo necessário aumentou. A advocacia tornou-se mais sofisticada, mas também mais exigente. A responsabilidade por estruturar corretamente a prova é maior, porque uma falha pode significar atraso no acesso a tratamento essencial.

Em contrapartida, quem compreende o novo cenário ganha vantagem estratégica. A atuação deixa de ser reativa e passa a ser planejada. O profissional que domina o filtro técnico consegue estruturar ações mais sólidas e reduzir riscos processuais.

A advocacia amadureceu.

Mas amadurecimento exige adaptação.

O Impacto Na Vida Dos Beneficiários

Para o beneficiário, a mudança é igualmente relevante.

Se para o advogado o cenário ficou mais técnico, para o beneficiário ele ficou mais complexo.

O paciente que recebe uma negativa de plano de saúde ou que não encontra determinado medicamento no SUS continua podendo recorrer ao Judiciário. O direito não foi retirado. A Lei 14.454/2022 permanece vigente. A tutela jurisdicional continua possível.

O que mudou foi o caminho.

Hoje, o beneficiário precisa estar preparado para apresentar documentação mais completa. A negativa formal deve ser registrada. O histórico clínico precisa estar organizado. O laudo médico deve ser detalhado, explicando por que o tratamento indicado é indispensável e por que as alternativas disponíveis são inadequadas.

A urgência emocional da doença não basta. Ela precisa ser traduzida em linguagem técnica.

Isso pode gerar angústia adicional. O paciente já enfrenta a insegurança da doença e, ao mesmo tempo, precisa reunir documentos, solicitar relatórios médicos detalhados e compreender que o processo exige fundamentação científica.

Mas essa elevação do padrão não significa restrição arbitrária do direito. Ela decorre de uma tentativa institucional de equilibrar proteção individual e racionalidade sistêmica.

 O STF deixou claro que o Judiciário não atuará como substituto automático da política pública ou da regulação técnica sem base científica consistente.

Na prática, isso significa que o beneficiário bem orientado tem maiores chances de êxito. A informação tornou-se ferramenta essencial. Buscar orientação especializada deixou de ser apenas recomendável — tornou-se estratégico.

Entre a Decisão Do STF e A Realidade Nua e Crua

A ADI 7265 e os Temas 6 e 1234 consolidaram um filtro técnico que já opera nas decisões cotidianas. Não se trata de enfraquecer o direito à saúde, mas de condicionar sua concretização a um padrão probatório mais robusto.

SUS e planos de saúde continuam juridicamente distintos. Mas o método de análise judicial aproximou-se. A prescrição médica continua relevante. Mas não é suficiente por si só. Não é mais absoluta.

Entre a teoria do STF e a realidade da doença e a urgência do paciente existe a atuação prática, os advogados lutando na trincheira, não bastando apenas ter razão.

O advogado , nesse momento precisa demonstrar com evidências, isso significa mais técnica, mais estratégia e mais responsabilidade.

Para o beneficiário, significa a necessidade de preparo documental e orientação adequada.

O direito permanece.

Mas, na trincheira, provar tornou-se tão essencial quanto ter razão.

E essa é a nova realidade do Direito da Saúde, consolidada pela ADI 7265 e pelos Temas 6 e 1234 e ignorá-la significa atuar em um cenário que já não existe mais.

Share the Post:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ANA KARINA OAQUIM
Ana Karina Oaquim

Advogada e Assistente Social atuante, sócia do escritório AKOS Advocacia, com pós-graduação em Direito à Saúde e Direito de Família. Possui destacada expertise em ações de Home Care, atuando com foco na defesa integral do paciente e suporte familiar, unindo técnica jurídica e olhar humanizado. Seu objetivo é garantir o respeito e a dignidade do paciente e de sua família. Atua em ações em face de planos de saúde e do SUS É membro da Comissão Regional Sudeste de Direito à Saúde da Associação Brasileira de Advogados (ABA). Coautora de artigos em obras jurídicas especializadas e palestrante em webinários e eventos da área. Comprometida com a atualização constante e a excelência profissional.

Últimos posts

Artigos recomendados