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Negativa do plano de saúde: como contestar em 5 passos

O plano negou — e agora?

Você recebeu a notícia que o plano de saúde não vai cobrir o procedimento indicado pelo seu médico. Em um momento que já é difícil por causa da doença ou da preocupação com a saúde, receber um ‘não’ da operadora pode parecer o fim da linha. Mas não é. A negativa do plano não é uma sentença definitiva — é o começo de um processo que, quando conduzido da forma certa, costuma ter um desfecho positivo para o paciente.

O que a maioria das pessoas não sabe é que existe um caminho claro para contestar essa negativa, e que em muitos casos ela sequer é legal. Planos de saúde são regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), e essa agência estabelece com precisão quais procedimentos precisam ser cobertos. Quando a negativa vai contra essas regras, o paciente tem instrumentos reais para reverter a situação — às vezes em questão de horas, quando há urgência comprovada.

Passo 1 — Exija que a negativa seja dada por escrito

O primeiro e mais importante passo é simples, mas raramente seguido: peça que a negativa seja documentada. É muito comum que a operadora comunique a decisão por telefone — um atendente liga, informa que o procedimento ‘não está coberto’ e encerra a ligação. Esse tipo de negativa, feita verbalmente, não tem valor jurídico nenhum para fins de contestação.

Você tem o direito de receber, por escrito, o motivo pelo qual a cobertura foi negada. Esse documento é chamado de Nota de Negativa de Cobertura. Nele, a operadora precisa indicar o fundamento — seja contratual, técnico ou regulatório — que embasou a decisão. Sem isso, qualquer recurso fica sem base. Solicite esse documento por e-mail ou pelo canal oficial da operadora, peça um número de protocolo, e guarde tudo. Esse será o ponto de partida de toda a contestação.

Passo 2 — Verifique se o procedimento está no rol da ANS

A ANS mantém uma lista chamada ‘Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde’. Esse rol funciona como um catálogo mínimo obrigatório — qualquer plano de saúde vendido no Brasil precisa cobrir tudo o que está nessa lista. Se o procedimento que o seu médico indicou está no rol, e o plano negou a cobertura, essa negativa é ilegal. Ponto.

O rol está disponível gratuitamente no site da ANS e é atualizado periodicamente. Vale a pena consultá-lo diretamente ou pedir ajuda de um profissional para fazer essa verificação. Além disso, desde 2022, quando entrou em vigor a Lei 14.454, os planos passaram a ter uma obrigação adicional: mesmo que um procedimento não esteja expressamente listado no rol, se houver comprovação científica de que ele é eficaz para tratar determinada condição, a cobertura pode ser exigida. Isso ampliou significativamente os direitos dos pacientes, especialmente para tratamentos mais recentes ou inovadores.

Passo 3 — Registre uma reclamação na ANS

A ANS não é apenas uma agência que cria regras — ela também fiscaliza e pune as operadoras que descumprem essas regras. Registrar uma reclamação é gratuito, pode ser feito pelo site ou pelo telefone 0800 701 9656, e costuma ter efeito surpreendentemente rápido. Depois que a reclamação é registrada, a operadora recebe uma notificação formal e tem um prazo para responder.

Na prática, muitas operadoras reconsideram a negativa ainda nessa fase, antes de qualquer ação judicial. Isso acontece porque uma reclamação procedente junto à ANS pode resultar em multas e outras penalidades para a empresa. Para a operadora, ceder nesse momento é, muitas vezes, menos custoso do que enfrentar as consequências regulatórias.

Passo 4 — Notifique a operadora formalmente

Em paralelo à reclamação na ANS, vale enviar uma notificação formal e escrita à operadora — de preferência com alguma forma de comprovação de recebimento, como um e-mail com confirmação de leitura ou uma correspondência registrada. Nessa notificação, você exige a cobertura do procedimento e fundamenta o pedido: menciona que o procedimento está no rol da ANS, apresenta o laudo médico que indica a necessidade do tratamento e deixa claro que, caso a negativa se mantenha, o caso será levado ao Judiciário.

Esse passo cria um registro formal de que você tentou resolver a situação de forma extrajudicial, o que é importante para qualquer processo judicial que venha a seguir. Também demonstra seriedade e, em muitos casos, faz com que a operadora dê um passo atrás.

Passo 5 — Acione a Justiça, se necessário

Se os passos anteriores não resolverem — ou se a situação for urgente desde o início e não houver tempo para aguardar o trâmite administrativo — o caminho judicial é não apenas possível, mas bastante eficaz. A ferramenta usada nesses casos é chamada de tutela de urgência, que é uma decisão judicial provisória. Ao solicitá-la, o advogado demonstra ao juiz que existe um direito sendo violado e que a demora em protegê-lo pode causar dano irreparável ao paciente.

Em situações onde há risco real à saúde — um tratamento oncológico sendo negado, uma cirurgia urgente não autorizada, um medicamento essencial sem cobertura — os juízes têm concedido essas decisões com muita rapidez. Em menos de 24 horas, em casos urgentes. E quando a decisão sai, ela tem força legal imediata: o plano é obrigado a cumprir, sob pena de multa diária em caso de descumprimento.

Não aceite o ‘não’ sem questionar A negativa do plano de saúde é, muitas vezes, uma tentativa de economizar. As operadoras sabem que a maioria das pessoas não vai questionar — vai aceitar o ‘não’ e, se puder, pagar do próprio bolso. Mas você não precisa estar nesse grupo. Conhecendo os seus direitos e agindo com as ferramentas certas, é perfeitamente possível reverter a situação. E quanto mais cedo você começar, maiores são as chances de um resultado favorável.

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Flaviane Caler
Flaviane Caler

Advogada especialista em Direito da Saúde, com pós-graduações e especializações voltadas à defesa dos pacientes. Atua de forma estratégica na garantia dos direitos de usuários do SUS e de planos de saúde, com foco em tratamentos oncológicos, medicamentos de alto custo e negativas assistenciais.
É colunista da Revista Saúde Concept e do site Migalhas, onde produz análises jurídicas e conteúdos educativos que aproximam a população do conhecimento sobre seus direitos em saúde. Sua atuação combina técnica, clareza e compromisso com a efetivação do acesso à saúde no Brasil.

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